
O sermão do monte, provavelmente o discurso mais conhecido de Jesus, começa com as bem-aventuranças, uma sequência de ensinamentos que definem a verdadeira felicidade e as virtudes do Reino de Deus. Como todo o cristão que as lê, o meu instinto é não desejar tanto as que podem trazer-me sofrimento e abraçar as que me parecem mais recompensadoras. Se, por um lado, não quero ser perseguido ou chorar, por outro o meu desejo é receber misericórdia, ser farto e, claro, ver a Deus.
A sexta bem-aventurança diz que os puros de coração verão a Deus. Ora, se a Palavra me diz que posso, de alguma forma, ver a Deus, é isso que eu quero. Quem são, então, os puros de coração? A busca por essa resposta levou-me a um texto do pastor galês Martin Lloyd-Jones, que diz que os puros de coração são “aqueles que se haviam lamentado devido à impureza dos seus corações”.
Foi então que percebi que, para alcançar o desejo de ver a Deus, antes precisava passar pelo lamento da minha incapacidade de o fazer sozinho. Se, por um lado, desejava fugir do choro que a segunda bem-aventurança poderia trazer-me, por outro encontrei-me no lamento que a sexta me trouxe.
Noutro episódio, Jesus está prestes a curar um homem com a mão mirrada. Cercado de fariseus e outras pessoas que o reprovavam, a Palavra diz que Jesus se indignou e se entristeceu com a dureza do coração daqueles que não queriam vê-lo fazer o bem. Os fariseus mostravam-se sempre dispostos a reduzir a maneira de viver e a rectidão a uma questão de comportamento externo. Jesus, por outro lado, importava-se com o coração, por isso entristecia-se com o deles.
Se a Palavra nos chama a um coração puro que vê Deus e não a um coração duro que o entristece, a nossa missão passa por confiar naquele que pode dar-nos pureza. Reflectir, lamentar ou chorar pela nossa incapacidade de nos purificarmos a nós mesmos não é um mau sinal; é evidência de que estamos a ser cuidados por Deus para que alcancemos a possibilidade de um dia vê-lo. Busco, portanto, a ajuda de Deus para ter o coração puro de um filho que depende do seu Pai e não o coração duro de alguém que confia demasiado em si mesmo.
[Texto de João Silva]
