Fé que persevera

É sempre uma alegria encontrar uma igreja nos lugares que escolhemos conhecer — mesmo nos mais pequenos e longínquos. Lugares onde, durante a semana, quase nada acontece, mas que, aos domingos, se enchem de vida: há um povo reunido, há culto, há adoração.

Muitas dessas igrejas são formadas por apenas alguns irmãos, reunidos com fé sincera em um Deus que continua a cuidar. E é justamente ali, na simplicidade e perseverança, que vemos o poder da fé.

Sabemos que Deus cuida de nós (1 Pedro 5:7) — essa é uma verdade que nos sustenta. No entanto, por sermos frágeis e, por vezes, esquecidos, precisamos ser lembrados continuamente desse cuidado que nunca falha.

A fé perseverante de poucos irmãos reunidos é uma lembrança. Continuar firme é difícil quando tudo ao redor é pouco (podendo parecer até insignificante), são os poucos a segurarem uns aos outros — mas ali encontramos um sinal de que ainda vale a pena permanecer, pois não fomos abandonados.

A Igreja de Jesus é viva, é grande e está espalhada por toda a Terra. Ela permanece, apesar de nós, geração após geração, sustentada pela graça de Deus. Mateus 16:18 diz que é sobre Jesus que a Igreja está edificada — por isso ela permanece. Não depende de nós, mas dele.

[Texto de Dayanne Dias]

Preciso de dois minutos do teu tempo e da tua voz

Querido leitor,

Tenho uma aula prática para ti. Preciso de 2 minutos do teu tempo e da tua voz. Por isso, se puderes, vai para um sítio onde possas falar à vontade, por favor.

Hoje não tenho um texto para te escrever, mas um do Spurgeon para ecoar nesta caixa de eco que é o instagram, porque ecoou no meu coração. Mas, para que seja um eco eficaz, desconfio que a tua voz desempenhe um papel importante. Empresta-ma.

Começa com uma passagem bíblica:

“Assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo.” 2 Coríntios 1:5

E vai assim:

“Existe uma bendita proporção. O Rei da providência tem um par de balanças – num prato coloca as provações do seu povo e no outro coloca as suas consolações. Quando o prato da provação está quase vazio, encontraremos sempre o prato da consolação numa condição semelhante; quando o prato das provações está cheio, encontraremos o prato da consolação igualmente pesado. Quando a noite se abate e a tempestade se aproxima, o capitão celestial está sempre mais perto da sua tripulação.

É uma bênção saber que, quando estamos mais abatidos, é aí que seremos mais elevados pelas consolações do Espírito. As provações abrem mais espaço para a consolação. Grandes corações só podem ser feitos por grandes problemas. A pá da tribulação cava mais fundo o reservatório do conforto e abre mais espaço para a consolação.

Quando o celeiro está cheio, o homem pode viver sem Deus. Quando o saco está a rebentar de ouro, tentamos viver sem tanta oração. Mas tirem-nos as nossas cabaças, e chamamos pelo nosso Deus. Não há clamor tão bom como aquele que vem do fundo das montanhas, nem nenhuma oração é tão sincera como aquela que sobe das profundezas da alma, no meio de intensas provações e aflições. Trazem-nos até Deus e, então, somos mais felizes; já que a proximidade de Deus é felicidade. Vinde, crentes atribulados, não vos aborreçais com as vossas pesadas tribulações, pois elas são os arautos de grandes misericórdias.”

Amém?

[Texto de Manel Ferreira]

O jejum esvazia e o jejum enche.

Porque é que andamos a falar de Jejum neste tempo que antecede a Páscoa? O que é que o jejum tem a ver comigo e contigo, em Março de 2025? Provavelmente, se fores como eu, não tem muito. Mas temos estado a aprender acerca do jejum, em igreja, e tenho aprendido umas coisas que gostava de partilhar.

O jejum esvazia. Tira uma coisa para dar lugar a outra. O jejum enche.

Estudámos cinco realidades que devemos procurar ser cheios em tempo de jejum: Oração, Escrituras, Sabedoria, Espírito Santo e Ousadia. Algumas delas já me eram familiares e até as associava a tempos de jejum. Mas quero destacar a ousadia.

Podemos definir ousadia de várias maneiras. Ousadia é intrepidez. Ousadia é coragem. Ousadia é ter fé. Ousadia é não ser tímido. Ousadia é uma das características mais repetidas pelos apóstolos no livro de Actos e, no entanto, não estamos habituados a procurá-la para nós. Temos medo de parecer convencidos, temos medo que dê errado e que façamos figura de parvos.

Ousadia pede tudo o que somos, e a ideia de pôr todos os ovos no mesmo cesto e isso correr mal, assusta-nos. Assusta-me. Mas aprendemos com personagem bíblicas como Ester que é mesmo isso que devemos fazer: apostar tudo em Deus.

Ester vivia no palácio. Enquanto isso, o seu povo – o povo judeu – ficou em apuros e precisou de ajuda. Tudo apontava para ser ela o mecanismo de acção dessa ajuda. Mas isso não ia acontecer sem grande risco para Ester. Se estavas a pensar que ousadia é só para quem não tem medo, estás enganado. Ousadia é ir com medo. Ester sabia que a probabilidade de morrer era grande. Mas foi. E, indo, pediu que o povo fizesse uma coisa com ela: jejum e oração. Ester estava convencida do poder do jejum e da oração, mais do que estava do seu medo. Estava convencida de que nesse tempo de jejum ela podia ser cheia de – imaginem só – ousadia!

Deus convida-nos a esvaziar-nos e enchermo-nos do que é realmente importante. Quando o fazemos, percebemos que o mais importante não é a nossa vida, mas o Deus que servimos e nos ama.

Ser ousado é perceber a grandeza de Deus e querer fazer parte dos seus grandes planos. Esvazia-te. Mas esvazia-te porque te queres encher.

Texto de Mariana Ferreira

A maldição da cruz traz em si uma celebração eterna

O Salmo 22 é citado por Jesus na cruz. No Gólgota, Jesus clama “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?”
O que surpreende neste Salmo é que no meio do desamparo, há uma firme confiança. Confiança na aliança (V. 1), confiança no livramento divino (V. 4,5), confiança na soberania e na providência de Deus (V. 9,10).
O Salmo apresenta a derrota perante inimigos poderosos (V. 11-17), mas ainda assim o derrotado demonstra uma confiança ímpar (V. 19) em Deus, Deus o livrará! Jesus viveu este Salmo! E nós, demonstramos esta confiança no dia a dia?
Ora, é útil perceber que, no mesmo salmo, esta confiança vem acompanhada de louvor (v. 22,23,25,26,27). Não é um louvor oco e mecânico. O louvor é prescrito porque Deus livra, porque Deus não despreza a dor do aflito, ele o ouve e socorre. Os sofredores comerão e se fartarão – Deus dará fartura ao que contava todos os seus ossos. Como está o nosso louvor?
O Salmo 22 é também escatológico, aponta para o futuro, para uma eternidade fulgorosa na presença de Deus.
Termina com um dos versos que mais gosto, o 31. Se o Salmo começa em trevas, no desamparo de Cristo na cruz, o Salmo termina no resultado da cruz, num povo que nasce da maldição do madeiro. Porque Cristo morreu, há um povo que o anuncia, que foi criado por Ele e que o louva.
Deus transforma morte em vida através da morte do seu Filho amado. A cruz não é o fim, é o início de um banquete, em que mais do que a barriga encheremos a nossa boca de louvor.
Mas o banquete começa aqui e agora, com a proclamação de quem Jesus é! Nas semanas que antecedem a Páscoa que possamos testemunhar de Cristo e louvá-lo com corações gratos!

Texto de Tiago Falcoeiras

Com quem tens derramado o coração?

Os Vampire Weekend têm uma grande estrofe numa das suas canções. Traduzindo toscamente para português, vai assim:

A raiva quer uma voz:
As vozes querem cantar
Os cantores harmonizam
Até não conseguirem ouvir nada

É uma grande sequência, que pode ser aplicada a nós. Estejamos nós a defender grandes causas, estejamos nós a defender péssimas, queremos muito é falar. E é fácil que queiramos falar tanto que cheguemos ao ponto de deixar de ouvir.

Ainda que tenha um bonito nome judeu (Ezra, ou Esdras no português), não estou aqui para aplicar verdades cantadas pelo vocalista dos Vampire Weekend, mas da Palavra de Deus. Em Provérbios 18:2 encontramos esta passagem:

“O insensato não tem prazer no entendimento, senão em externar o seu interior.”

Podemos parafrasear e dizer que os tolos não estão assim tão interessados em ser sábios, e um dos sintomas é a vontade que abafa todas as outras de exteriorização das suas opiniões. Uma compulsão que o tolo considera incontrolável de dizer o que lhe vai na mente.

Revejo-me nesta triste caricatura. Trago à memória a quantidade de conversas que não foram conversas, porque estava só à espera que a outra pessoa se calasse para dar a minha opinião.

Curiosamente, a Bíblia tem mais a dizer acerca de exteriorização e derramamento das coisas que temos no coração. No Salmo 62:8 somos convidados a derramar os nossos corações a Deus, porque ele é o nosso refúgio. A oração é isso também.

A resposta está sempre no que Deus faz por ti, e não no que tu fazes por Deus ou pelos outros. Podes ter muitas opiniões que derramas a todos, mas, se não te derramas a Deus, a Bíblia chama-te insensato. Tem-me chamado a mim, muitas vezes.

Uma pessoa que derrama o seu coração a Deus não tem necessidade de derramar as suas palavras aos homens. Quando experimentas derramamento com Deus podes experimentar a moderação com os homens. E, na hora de então usares as palavras, vais querer falar da Palavra que te conquistou.

Jesus é a nossa resposta e o que deve moderar e encher as tuas respostas. É isso que celebramos na Páscoa: Jesus é a resposta. Vamos harmonizar a louvá-lo.

[Texto de Manel Ferreira]